In memorium - Al Berto - A Great European Poet

INTRODUCTION


I would like to start by saying that there are some flaws in the available information about the biography of Al Berto, but nevertheless, as in music and other Arts we could not - we should not - keep it only to ourselves. Those lives are way too big to describe and way too big for us to be selfish. Art was made to be shared, and this is maybe the main reason I am here now writing this article about this great author, poet and writer for you. And because of all this I will only write a few lines about his “life and history” and leave you with the most important of all: his own words.


POETRY


O Domador de Luas

estamos encostados a uma roulotte bebemos sangria
conversamos enquanto queimamos a noite
junto ao mar
o vento fresco surpreende-nos com as mãos nervosas
em redor dos copos embaciados a ternura dum olhar
não chega para iludir a embriaguez dos amores imperfeitos
sei que possuis ainda alguma juventude nesse sorriso
eu já só embebedo os lábios viciados pelas palavras
pouco tenho a dizer-te
toco-te no ombro faço promessas e tu ris
enquanto descobrimos no silêncio cúmplice do vinho
treme uma teia de luminoso sal onde a noite cai
sobreviveremos ao desgaste do amor
bebemos mais
para que haja só desejos e não amor entre nós e
o rapaz que tem a mania de espetar uma faca loura
no ombro do mar
La vie est une gare, je vais bientôt partir,
je ne dirai pas où.
calei-me
sabendo que me conduzirias até casa pelo caminho da praia
cambaleantes
e enquanto eu não conseguir abrir de novo os olhos
não partirás tenho a certeza
com a tua jaula cheia de luas mansas
apaziguadas

in Alguns Poemas da Rua do Forte, 1983

BIOGRAPHY


Alberto Raposo Pidwell Tavares was born in Coimbra in 1948. 

In the Spring of 1967 he moved to Brussels and studied painting at the École Nationale Supérieure d'Architecture et des Arts Visuels

In 1969 Al Berto founded the Internacional Association Monfaucon Research Center

Later, in November of 1975 he came back to Portugal, opened a bookstore and a publishing house. Two years later he published his first book in Portuguese “À Procura do Vento num Jardim d’Agosto”.

In 1988 he received the Poetry PEN Club award with O Medo.

He died in 1997 at age 49.

WORKS


Some Books published by Al Berto

- À Procura do Vento num Jardim d’Agosto (1977)
- Meu Fruto de Morder, Todas as Horas (1980)
- Trabalhos do Olhar (1982)
- Três Cartas das Memórias da Índia (1985)
- Salsugem (1985)
- Uma Existência de Papel (1985)
- Lunário (1989)
- O Livro dos Regressos (1989)
- A Secreta Vida das Imagens (1991)
- Canto do Amigo Morto (1991)
- Luminoso Afogado (1995)
- O Anjo Mudo (1993)
- Horto de Incêndio (1997)
- O Medo (a selection of writings between 1974-1990 awarded with Pen Club Of Poetry in 1988)

INTERVIEW


In the Winter of 1989 Francisco José Viegas made an interview with Al Berto, published in Revista LER nº5 (you can find the full interview in Portuguese here). 

A few words from this interview:

“I don’t feel attracted by (…) having money. There are people who are different. I like the other side of life, the other side of the sea (…) I think the planet is lost and probably what António josé Saraiva told its correct: its better this becomes a little worst, to see if people have more time to look at each others” 

(“Por ele passam as referências de uma geração (e é tão estranho falar de geração a propósito de Al Berto) que não encontra neste reino as suas referências ou as usas circunstâncias. Eterna e crepuscular meditação sobre a amizade (de que nos falam alguns dos poemas de Uma Existência em Papel: «eis o retrato do meu único amigo / a quem tudo revelo / o que me cresceu no coração» ou a tentação de «nomear-te / para recomeçarmos juntos a vida toda»), sobre o desaparecimento, a fuga, a pureza, a impureza, o excesso e o ser tão rara e simples a vida, a obra de Al Berto confronta-se, também, com os lugares de um caminho por onde passam referências à Beat Generation, ao que resta de algumas das tradições dos anos sessenta, a um vago lugar mediterrânico onde existe a voz do conforto e da limpidez de tudo.”)

POETRY


Rasgo o Melancólico

rasgo o melancólico interior dos insectos
atravesso a sabedoria das infindáveis areias do sono
sou o último habitante do lado mitológico das cidades
por vezes consigo acordar
sacio a sede com a tua sombra para que nada me persiga
teço o casulo de cocaína escondo-me no mel da língua
lembro-me... fomos dois amigos e um cão sem nome
percorrendo a estelar noite noutros corpos
mas já me doem as veias quando te chamo
o coração oxidado enjaulou a vontade de te amar
os dedos largaram profundas ausências sobre o rosto
e os dias são pequenas manchas de cor sem ninguém
ficou-me este corpo sem tempo fotografado à sombra da casa
onde a memória se quebra com os objectos e amarelece no papel
pouco ou nada me lembro de mim
em tempos escrevi um diário perdido numa mudança de casa
continuo a monologar com o medo a visão breve destes ossos
suspensos no fulcro da noite por um fio de sal
partir de novo seria tudo esquecer
mesmo a ave que de manhã vem dar asas à boca recente do sonho
mas decidi ficar aqui a olhar sem paixão o lixo dos espelhos
onde a vida e os barcos se cobrem de lodo
pernoito neste corpo magro espero a catástrofe
basta manter-me imóvel e olhar o que fui na fotografia
não... não voltarei a suicidar-me
pelo menos esta noite estou longe de desejar a eternidade

in Trabalhos do Olhar: O Último Habitante

A Paisagem Prolonga-se

a paisagem prolonga-se num S de flores azuladas
ela entra nas ruínas
junto ao ângulo penumbroso da casa destruída
está vestida de branco quando ele lhe fala
ambos têm o olhar vago
ela recorta-se sobre um fundo de árvores nuas
ele está de pé encostado a um muro de pedra
ouve-se alguém dizer: não tenhas medo
somos apenas actores dum sonho paralelo à paisagem
os lábio dela tremem ou sorriem
ele encolhe-se mais contra a parede
o silêncio ainda não os abandonou
ela espreita-o
ele desenha-se exacto no centro do écran
(de novo uma voz off)
um vento vertical adere à casa
onde as raízes dos cardos irrompem dos alicerces
e quando ela se vira para o interior das ruínas
prende-se-lhe o olhar num ponto inexistente
ele já ali não está
apenas a objectiva da câmara continua a segui-la”

in Trabalhos do Olhar, 1976/82: Filmagens, 1980/81

WORDSONG PROJECT


Wordsong project made with his poetry:

http://www.youtube.com/watch?v=z4DGvbmEUFE

“When are you in Sines and when are you in Lisbon? Why you split between Lisbon and Sines? 

– The night as to be with Genet. The escape, with Rimbaud. The mysticism with Bataille. Sade, with the unforessen. The excessive side (drugs, alcohol (…)), with Baudelaire (…)” 

“What is the importance of the fear?

– We can’t live without fear. There are two ways of understand that: the fear that makes us be aware, and the inner fear, that as more to do with the writing. I have afraid of writing. (…) a question that always appear is: ‘what are you going to put in that paper?’”

CONLUSION 


And this is a great thought on which to finish this subject and honor this great man that has left us with so many wise and sentimental words of a life, a man that dedicated his life to the act of writing and not only writing but he left us way too much to think about, think about ourselves and others.

And now I’m going to repeat the question above, to all of you authors, poets, writers, and so on: 

What are you going to put in the paper?


Author’s note: Some things are not translated because, in my opinion, they would lose their essence in translation. Hope you all understand that.